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Um ano? Dois? Milênios?

O certo é que teu rosto estava lá, junto com as paisagens e com os gritos que ecoavam dentro de mim. Sabe o que eu vejo? Tantos sonhos de vidraça despedaçados enquanto eu confundia ilusão e vaidade.

Eu me conhecia?

A verdade é que eu estava indo pra qualquer lugar onde você não estivesse. Dentro de mim o mapa era esse: Placas de quilômetros desfocadas, cidades campestres que eu nunca desceria pra visitar, carros apressados acenando com seus faróis o esquecimento que eu adestrava para ser meu companheiro.

Eu subi naquele ônibus para nunca mais. Só que as assinaturas do teu silêncio já faziam parte do meu ouvido, abriram-se as persianas da consciência, e os sonhos me cegaram. O que de você vai ficar guardado comigo? Está tão complicado separar o que é abandono do que é fuga. Começo a achar que é tudo a mesma eternidade.

O teu último beijo tem décadas, e mesmo assim a sua marca nunca mais desgrudou da minha face. Essa tatuagem permanece áspera com a promessa de que poderia evitar as lágrimas com doçuras ou cordialidades.

As minhas malas não foram fechadas ou montadas com cuidado. Eu tentei te dizer a cada instante que você espiava no vão da porta que isso era o melhor pra todo mundo, mas em nenhum momento tive coragem de abrir a boca.

Eu sussurrei só uma palavra:

- Pronto.

Não foram poucos os que se despediram com foices. Eu mesmo me brindava com mertiolate. A cicatriz tão visível na alma de quem perde o que mais ama não desfez a noite e os grãos impiedosos da despedida.

Não sei se existe perdão, afinal há coisas em relacionamentos assim que são como o amadurecimento dos frutos, ou águas que correm mais e menos em ribanceiras do lugar nenhum, ou montanhas iluminadas por aquilo que considero o verdadeiro dom divino.

Quando desci na estação eu descobri a maior lição da minha vida: o passado é a única certeza que nós temos.

Chegando em casa hoje, o filme era em preto-e-branco. E o vento pintava de vermelho minhas costas.

 

 

Sá & Guarabyra - Cadernos de Viagem

 

 

 

 



Escrito por Vini Noronha às 03h51
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- Pode começar.

- Nem sei por onde...

- Comece pelo último, ou pelo primeiro. É sempre uma boa escolha.

- Tá. Tá bom. Vejamos... Eu tinha 8 anos e corria desesperadamente atrás de um garoto que havia caçoado dos meus sapatos. A gente cruzou o pátio todo, entramos em várias salas ainda em aula, foi a maior baderna. Quando finalmente o alcancei, eu o segurei pela gola e gritei algo que nem me lembro mais. Ele então olhou nos meus olhos, já imersos, e me pediu perdão. Ele me pediu perdão.

- E você?

- E eu estava completamente cego de raiva que só vi a boca dele se movendo, sem dar a mínima atenção às palavras. Fechei a mão e dei os socos mais duros e rancorosos da minha vida. Até que alguém viesse me impedir, eu já tinha transformado a cara do garoto em uma bola de sangue. Uma semana depois, chegou a notícia de que ele havia mudado de escola. Depois soube que não era apenas de escola, mas de cidade também. E por mais que me dissessem o contrário sempre acreditei que foi por algo provocado naquele incidente.

- Esta resposta você nunca terá. Você só tem a sua escolha.

- Eu errei. Eu guardei mágoa e errei.

- Há coisas que aprendemos na vida, mas nunca nos damos conta. Este é o momento perfeito pra você perceber isso. Mas antes, me conte mais uma.

- Isso não é fácil.

- Viver só seria fácil se a gente não soubesse que é apenas um tempo extra que temos antes de algo chamado morte.

- Ahn..

- Anda, conta mais uma.

- Eu tinha 25 anos, tinha um emprego razoável e um namoro estável, que todos acreditavam que daria em casamento. No entanto, qualquer vestígio de responsabilidade já me deixava de joelhos trêmulos.

- É. Você nunca reagiu bem às pressões. Engraçado, já que se pressionava tanto.

- Num dado momento, minha então namorada começou a falar de um sonho que teve, onde estávamos com nossos filhos já crescidos, em uma casa de veraneio, netos no colo, e de repente essa casa desmoronava e ela desesperada e soterrada nos destroços gritava por meu nome. Ela salientou que não gritava o nome dos filhos, dos netos, nem de nenhuma outra pessoa que não fosse o meu.

- Claro, eles nem existiam, portanto não tinham nomes.

- Mas ela sempre citava os nomes que gostaria de dar aos filhos. Num tom sarcástico, meio que pra me irritar, mas sabia que eram suas futuras e verdadeiras escolhas.

- Ah sim. Enfim, continue.

- E então ela começou a chorar, e a dizer milhares de coisas... Disse que me amaria por toda a eternidade, que não passaria um dia sequer longe de mim, que vislumbrava um futuro perfeito ao meu lado. Isso em tese deveria me fazer sentir o homem mais feliz do mundo. Mas foi exatamente o contrário. Me senti indefeso, pequeno e amarrado diante de um destino imutável. Por três meses foi assim, até que decidi tomar as rédeas da minha vida novamente. Terminei esse relacionamento com a convicção de que tinha reconquistado o direito de escolher o melhor caminho pra minha vida.

- Sei. Se fosse assim você não precisaria estar aqui nesse momento.

- Sim.

- ...  (continua)



Escrito por Vini Noronha às 02h04
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- O pior é a sensação de que tornei alguém que amava infeliz.

- Você não tem o direito de lamentar assim por suas escolhas equivocadas. Você seguiu algo que estava vivo dentro de você, num sufoco que te mataria caso você prendesse mais um pouco.

- Eu não soube direcionar minha vida direito... Eu errei quando escolhi o emprego que em pagou melhor, porém me manteve distante das pessoas que eu mais amava. E eu fugi de casa tantas vezes em desespero só pra agoniar meus pais pra que eles me notassem, me amassem um pouco mais. E eu queria tanto aquele cargo na gestão... E dei nomes, fiz conchavos, fui um mau-caráter. Eu nunca disse um “eu te amo” que fosse verdadeiro em toda a minha vida. Meu compromisso era com o que a vida podia me oferecer de imediato, na borda do prato.

- Sabe qual foi seu pior erro?

- Dentre tantos. Não.

- Você não se conhecia. Você é um estranho para si.

- Que coisa estúpida, eu sou isso que você está vendo, essa infelicidade em forma de gente.

- Não, eu não estou vendo isso. Estou vendo alguém que foi vencedor e perdedor na vida. Alguém que é Deus e Demônio, o covarde e o herói, o mendigo do banco de praça e o senhor que dita as regras do jogo. Estou vendo um santo e um pecador. Um ordinário mesquinho incapaz de amar, e o amor personificado.

- Não é nada disso, eu...

- Quantas vidas você acha que são diferentes da sua? Você acha que na Terra só existem acertadores? Homens de sensibilidade suprema? Acha realmente que todos as gargalhadas e lágrimas que você assiste de camarote são sinceras? Quem você acha que pode questionar suas razões? Somos todos movidos por carência e medo, vaidade e destreza, compaixão e egoísmo. A busca da felicidade é vazia, porque ninguém percebe que o que na realidade existe na vida não é felicidade, e sim momentos felizes. Um dia você, eu, e todo mundo vamos perceber isso, e vamos pagar de bom grado o preço que vier por seguir o que sentimos.

O diálogo acabou por aí. Foi interrompido por um choro que foi engolido por tantos anos, em tantas situações, que fica impossível mensurar o grau de alívio que ele proporcionou. Depois disso, ele pode perceber que a paz mora nas coisas que explodem no vento, que transparecem na escuridão, e que gritam em sintonia no vácuo eterno.

 

 

Social Distortion - Winners and Losers

 

 



Escrito por Vini Noronha às 02h04
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Éramos quatro, e quase sempre um. Todas as manhãs eram azuis conforme nossos olhos confrontavam as novidades de mais um dia como qualquer outro, como nenhum.

Eu era o mais falante, o que lidava melhor com as situações inusitadas com as quais sempre deparávamos. Já fiz tanta madame comprar leite sem rótulo, e vilões de seriados nos perdoarem as vidraças quebradas, que perdi a conta.

Havia o problemático, que nenhuma mãe queria como companhia pro seu filho. Ah quanta falta de percepção, se soubessem o sangue que esse rapaz já deu pelo resto de nós... Hoje dou uma risada abafada relembrando esse descaso, mas na época era complicado amenizar isso. Bem... Na verdade deixávamos ele jogar como meia-direita e tudo voltava à estaca zero.

- Não vá se sujar!!!!

Mas que alienígena não se sujaria na prova mais disputada das Olimpíadas?? É claro que ele se sujou, se chafurdou na lama como um animal sem dono, e não suficiente ainda contribuiu para a imundice dos demais. Esse de quem falo agora era o mais ativo, fazia pontes das pernas dos transeuntes, e autódromos do pavimento da rua sem saída. Não era pra menos: era adorado por demais. Quanta criatividade...

- Que tal se as mesas fossem grandes dinossauros? Laçarei todos com meu cadarço de alcance infinito!

- Está nascendo um terceiro braço em mim. Quando ele crescer, vou poder nadar mais rápido que um tubarão.

- Quando eu morrer, daqui uns quinhentos anos, vou prum lugar só com carros de corrida pra eu pilotar até enjoar. Bom... E quando eu enjoar eu venho visitar vocês e assombrar seus filhos... haha

E quem disse que não acreditávamos? Tudo o que ele dizia, cumpria no ato. E eu sempre era o primeiro a apertar a sua mão a cada tarefa impossível que ele nos trazia encharcado de suor e lágrimas.

Mas tinha um de nós que nunca acreditava nele. Na verdade, não acreditava em nada. Nem nos sorrisos, nem nos presentes de Natal, nem nas pipas que ficavam para sempre lá, coladas no céu, mesmo ao anoitecer.

Aos olhos de sua desconfiança os atos heróicos dos demais eram revistos, redecorados, e se tornavam banais. Mas isso não era ruim. Alimentava nosso ímpeto de mais. Tínhamos que superar cada aventura de minutos atrás como se elas nunca houvessem existido. Ele fazia esse favor, nos tirava do teto de volta pro piso, cortava nossas asas e ainda pregava nossos pés.

E assim seguíamos com planos da conquista do bairro, ou ao menos das garotas do fim da rua, sempre as mais requisitadas. Eu, de costume, era o porta-voz dos recadinhos esdrúxulos que escrevíamos em conjunto em favor do outro que não conseguia raciocinar direito só de pensar em sua musa.

Muitas vezes deu certo, muitas vezes não. Mas não me lembro de ninguém ter saído gravemente machucado dessas brincadeiras de lábios que timidamente se tocaram ou de rejeições em aniversários alheios.

Não visito essa rua há mais ou menos 40 anos. Mudou de nome, o pavimento foi trocado, e agora a rua tem uma saída pra uma enorme avenida onde é impossível imaginar que nossos feitos poderão ser repetidos.

Hoje o sol desaparece no firmamento de sopetão. As estrelas dão a impressão de estarem mais ausentes uma das outras. E as manhãs que chegam me mostram um tom diferente, mas não sei explicar exatamente se mais escuro ou mais claro.

Todos seguimos em nossas vidas com desvios ao longo de todo o percurso, e as notícias que chegam em pombos-correios bêbados me dão vontade de gritar. Ou de sumir.

Mas até hoje, depois de crescidos, meus filhos não entendem porque eu sorrio toda vez que comentam de uma sensação estranha, porém reconfortante, que sentem antes de dormir.

 

 

Belle & Sebastian - To Be Myself Completely

 

 



Escrito por Vini Noronha às 21h45
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Ela continuava a caminhar no seu itinerário preferido: duas da tarde percorria a calçada de duas ruas atrás, depois uma viela que dava diretamente na sua casa. O olhar impenetrável, o andar errante da tenra idade... Tudo anunciava que ela ainda era pródiga naquilo que para ele era o fim de todas as suas conseqüências, temores e cálculos.

Ao sair de casa, ele era movido único e exclusivamente por um sentimento que na verdade eram vários, todos de uma só vez, e a intensidade sem nunca ser dividida: O medo de não encontrar a si, caso não a encontrasse. A ânsia de sair de si ao vê-la dona de si. Não era sonho porque doía, e não era dor porque havia o sorriso estúpido, idiota, cretino, que era inevitável ao perceber a existência de alguém tão sublime.

Os passos não eram sentidos, as pernas eram apenas a continuidade do seu tronco, assim como todo o resto era tão ínfimo perto dessa euforia que o tornava maior que humano por alguns segundos eternos.

Eram os seus longos e esvoaçantes cabelos louros? Ou sua pele tão clara que dava vontade de apagar o sol eternamente para que ela nunca mudasse? Seria seus olhos castanhos amendoados que nunca sequer cruzaram com os seus? Ou seu sorriso que era o exemplo maior de felicidade para todos os povos e constelações?

Nada. Isso que era.

Não havia tempo nem sobriedade pra pensar em algo pra dizer... Não, isso seria muito frio, seria um gesto raso, reto, próprio de quem tem controle sobre o que ocorre quando avista quem tanto se deseja. Não era o bastante. Era necessário um tributo, uma quaresma, uma banda, um reveillon...

Para ele, palavras não bastavam. Tampouco uma explicação. E a cada dia ele morria pra poder sobreviver e renascia novamente na tarde seguinte.

Para ela, continuava uma calçada, uma viela, e um garoto que ela olhava de relance, com certo interesse afogado pela timidez que se desfazia no conforto de seu lar.

 

 

Gram - Você Tem

 

 



Escrito por Vini Noronha às 23h54
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Me abraça só dessa vez.

Me olha nos olhos e tenta perceber que eu me entrego por essas feridas mal-cicatrizadas que sobrevoam nossas conversas e risadas ingênuas.

Isso não é um mero pedido. Me deixa te fazer uma revelação: Eu sou todo amor. Eu sou até mesmo o amor que eu não tenho e que eu não vejo alguém ter.

Eu sei o que é resignação. O que é deixar de ter pra ser aquilo que não seja um problema. O que talvez você não entenda é que minhas lágrimas são uma declaração de amor pra ti.

Minhas lágrimas são o desejo infinito de que você só tenha paz.

Me ame mais um pouco, me cale se for necessário, me xingue se ver um erro que você não cometeria nunca por ter vivenciado tão mais escuridões.

Mas no fim me deixa ser o beijo que te consola.

 

 

Cafe Tacuba - Avientamé

 



Escrito por Vini Noronha às 00h14
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Noites sem sono costumam ser mais fáceis quando não se tem algo a se pensar. Será que um dia eu conseguirei esvaziar de mim todas as virtudes que tentei me forçar a ter para assim não me arrepender de tantas experiências que não tive?

Acho que nem ela nem eu estivemos preparados. Tinha dito que quem desistisse primeiro não iria ver a dor de frente, deixando o outro mais vulnerável à qualquer pequena aflição que a ausência do outro, ou no caso de si mesmo, pudesse causar.

- Eu tenho tanta coisa pra te dizer, o problema são as palavras

- Não, o problema é que dizer não basta. Dizer é muito simples e tem coisas que você nunca vai sacar...

- Por que diz isso...?

Tem horas que o silêncio não diz nada. Só fere.

Eu desejara que meu grito interno rompesse essa incapacidade de ação que minha insegurança cria e atravessasse todos os cômodos, cidades e labirintos em que já estive com ela, e pousasse na tranquilidade que ela tem pra me dizer tudo aquilo, e desse um exemplo do que ações não são eficazes em demonstrar.

- E de que adianta tudo isso?

- Adianta que você nunca vai ter isso de novo

- Ah...

 

 

Pink Floyd - Hey You

 



Escrito por Vini Noronha às 03h43
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